Um ídolo não morre... a arte sempre fica. Talvez seja por isso que a morte dos ídolos tenha se transformado em mitos tão grandes quanto a própria história da vida artística. Digo isso ao me deparar com as manchetes como: “Um ano depois, morte de Michael Jackson ainda é mistério”. Provavelmente sempre será. Assim como foi com Elis Regina e Elvis Presley, para citar apenas dois exemplos.
“Não se esqueça de mim. Mas eu não quero o toque de missão cumprida. Quero o toque de silêncio”; sob esses versos a Pimentinha se despediu. Impossível o toque de silêncio para quem 'soube de tudo na ferida viva do seu coração', 'quis uma Casa no Campo para compor muitos rocks rurais' e 'fez irreverências mil pra noite do Brasil', com uma voz incrível que uniu técnica e emoção num estilo insuperável, que a fez a principal cantora brasileira. Isso sempre fica.
No caso de Elis, seria a Cocaína diluída em uísque? A médica que a recebera morta, no Hospital das Clínicas não emitiu o Atestado de Óbito pela impossibilidade de concluir as causas de morte natural, então, como de praxe, o corpo foi submetido à autópsia. O legista Harry Shibata, o mesmo que assinou o laudo da morte do jornalista Vladimir Herzog, precisou consultar o diretor do DOPS, Romeu Tuma... “Seria possível ingestão de álcool e cocaína por via oral?” No laudo divulgado pelo IML foi assim estabelecido: "Na necrópsia procedida nada encontramos digno de especial menção que pudesse explicar a morte" –, escrevem os legistas José Luiz Lourenço e Chibly Hadad, que assinaram o documento. "O exame toxicológico, de suma relevância no caso, dada a negatividade dos achados da necrópsia, veio nos fornecer a resposta da causa mortis", completam. Os exames foram feitos sob resistência da família e do último namorado de Elis, Samuel Mac Dowell de Figueiredo, que não queriam oficializar a imagem da cantora como usuária de drogas.
Inicialmente Elis era “careta” e hostilizou o desbunde do tropicalismo. Amigos garantiam que ela nunca usou drogas na presença do namorado Samuel, mas que a cocaína surgiu em sua vida em 1981, em uma viagem que fez aos EUA. Estudos recentes apontam que uma pequena dose do pó branco que inspirou Arthur Conan Doyle a escrever as aventuras de Sherlock Holmes, esteve nas rodas do papa Leão XIII e encorajou Elis Regina a subir no palco em seus momentos de insegurança, se ingerida por via oral, é suficientemente letal.
A biografia paradoxal de Elis, como ela mesmo costumava se definir: "Sempre vou viver como camicase. É isso que me faz ficar de pé", levantou algumas questões: ela era viciada, houve induzimento ao suicídio? A dúvida dos médicos nas causas da morte; a nebulosidade sugerida pela própria família; o saudosismo dos fãs na figura do ídolo; e o conflito de versões também sempre fica ...
...Fica, assim como o lendário “Elvis não morreu”... Elvis não morreu porque o rock nunca vai morrer. O primeiro rockstar expandiu o estilo do gueto dos negros e o popularizou na sociedade estadunidense racista. A voz aveludada, a boa pinta, o espírito sedutor e o requebrado sensual consolidaram a figura do canastrão. Mas foi principalmente a música que fez Elvis permanecer influenciando Beatles, Stones, Pink Floyd, Deep Purple, Led, Queen, dentre tantas outras bandas de renome.
Diante de todo o legado, os últimos anos na carreira foram decadentes, tanto para a imagem física de Elvis, que deixou de ser o galã para esbanjar muitos quilos a mais, quanto pela riqueza musical que deixou de ser o rock´n´roll para a predominância das baladas românticas. Para quem experimentou o auge é muito difícil lidar com a normalidade...
Em 16 de agosto de 1977, os fãs da música se viram diante de mais um mistério: das dez da manhã às duas da tarde, ninguém sabe o que ocorreu com Elvis Aaron Presley. A única certeza é que os fatores sistêmicos, como o uso abusivo de medicamentos para perda de peso e controle de apetite, os hábitos cotidianos e as circunstâncias culminaram com o pior, uma falência cardíaca fulminante. Foi a namorada Ginger Alden quem levou o corpo da lenda do rock ao hospital “Memorial Batista”. Elvis não consumia drogas psicotrópicas como cocaína, heroína ou maconha, era viciado em medicamentos. O médico Dr. George Nickopoulos receitava as abusivas doses a seu paciente. Com a morte do ídolo, a comoção popular foi tamanha que as linhas telefônicas de Memphis se congestionaram, as floriculturas venderam todas as flores em estoque e os fãs se aglomeraram para acompanhar o velório. Muitas pessoas acreditam, no entanto, que não foi na data considerada oficial que morreu o “rei do rock” .
O “rei do pop” despediu-se da vida também de uma maneira lendária, às vésperas de sua última turnê mundial. Os ensaios revelavam a fragilidade que Michael Jackson se encontrava. O compositor, o cantor e o bailarino unidos em um só corpo foram consagrados por Thriller, pela voz aguda e pelo Moonwalk. O passo foi exibido pela primeira vez em 16 de maio de 1983, e ficou para o resto de nossas vidas. Michael, mais do que ninguém, representou o poder da fama, o poder de fazer o que as pessoas comuns não fazem... À medida que ia ficando famoso, ele ia se transformando... Nasceu negro e morreu branco, nasceu homem e foi se tornando de uma sexualidade indefinida, foi na infância um adulto devido às pressões da fama prematura e na maturidade tornou-se uma criança.
Assim como todos aqueles que se distanciam do comum, Michael não segurou a onda. A enorme expectativa em torno de uma figura desembocou em bizarrices, idiossincrasias e excentricidades, fazendo-o tornar-se viciado em algo que aliviasse as pressões da necessidade de superação constante. Foi o excesso de medicamentos – o anestésico de uso hospitalar Propofol, o ápice, que acabou por levar mais um ídolo e por complicar a vida de mais um médico inconseqüente em seus prontuários. Conrad Murray hoje é acusado de homicídio culposo. Alguns depoimentos deixam dúvidas no ar... Segundo Alberto Alvarez, diretor da última turnê, o corpo de Michael foi encontrado com a boca meio aberta, os olhos abertos e aparentemente inconsciente. O médico teria trabalhado freneticamente para salvar a vida do artista e até tentou respiração boca a boca.
Alguns fatores aproximam as mortes de Elis Regina, Elvis Presley e Michael Jackson e as tornam mitológicas... A personalidade excêntrica de cada um deles, a eterna busca pelo sucesso e a insegurança pessoal , o envolvimento com drogas e a dificuldade dos médicos em anunciar o apagamento de uma estrela, o falecimento do ídolo e suas devidas causas.
O cartunista Henfil, colocou Elis Regina no “Cemitério dos mortos-vivos”, ao lado de Marília Pêra, Roberto Carlos, Tarcísio Meira, Glória Menezes e Pelé. “Elvis não morreu”. E Michael continua vivo no último suspiro do tão esperado “This is it” que “That wasn´t it”.
Marina Ricciardi