quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Antes do tudo novo

O fim da linha
O fim dos tempos
Quando não se pode mais
Se a vida quis assim
Antes do início vem o fim, e antes do fim vêm tantas coisas
Depois do fim, o início, e depois do início, eu só saberei quando começar
O fim nem sempre bom, nem sempre ruim
O fim do bom, diferente do não-bom
O fim do ruim, diferente do bom
O ápice da virada
Tudo novo
E a capacidade de sentir
A comemoração do fim
O fim da arte, à parte
Marina Ricciardi

domingo, 11 de julho de 2010

O Socialismo Digital

Estamos diante de uma nova forma de coletividade, que vem online. As atividades em redes - o compartilhamento, a cooperação, a colaboração e o coletivismo são um novo tipo de socialismo, o socialismo digital:  sem estado nem governo, que atua na economia e na cultura.

Exemplos práticos desse socialismo na internet podem ser ambientes de compartilhamento ubíquo de arquivos, como o Linux, a Wikipedia, bens coletivos como o Creative Commons e espaços colaborativos como o Flickr e o Youtube.  Como resultados da colaboração, calcula-se que a última versão do software colaborativo Fedora Linux 9 é fruto de 60 mil anos-homem (a totalidade do trabalho de 60 mil homens ao longo de um ano). Tudo isso é feito sem remuneração, e o que motiva os participantes é o desenvolvimento de novas habilidades e o aperfeiçoamento competitivo no mercado de trabalho.

Esse novo socialismo não está diretamente ligado ao socialismo de bandeira vermelha, nem é anti-americano. O socialismo digital nasceu numa época de comunicações centralizadas e processos industriais, e os contrapõem com processos de propriedade coletiva, mercado livre, economia global integrada, autonomia individual e descentralização.

Não é absurdo chamar as atividades colaborativas em rede de socialismo porque as tecnologias têm seu poder em interações sociais nas quais milhares de pessoas proprietárias dos bens de produção trabalham por um bem comum sem remuneração e têm direito aos frutos do trabalho sem custo.

John Barlow, um dos ativistas da área reconhece a existência de “uma força mundial composta inteiramente por agentes livres” - o que determina uma economia descentralizada onde não há propriedade e onde a arquitetura tecnológica define o espaço político. No entanto, não se trata de uma ideologia, mas de um conjunto de técnicas e ferramentas que promovem a colaboração e a cooperação social num terreno fértil de inovação.

Aqui, entram questões relativas ao império e à comunicação: controle difuso e flexível, nova ordem imperial com abolição de fronteiras, totalidade biopolítica, dispersão de conflitos e atemporalidade.

Muitas técnicas de saber e de narrar  são construídas atualmente de maneira coletiva, portanto são ferramentas muito mais sociais que racionais. Um resultado possível do compartilhamento, da cooperação, da colaboração e do coletivismo é a socialização da educação, apesar de o conhecimento continuar sendo sinônimo de poder.

A tecnocracia pode aumentar a autonomia individual e o poder das pessoas trabalhando juntas. Yochai Benkler propôs a noção de socialismo digital como uma terceira via que pode resolver problemas e criar coisas que nem o puro comunismo, nem o puro capitalismo podem. Nas palavras de Yochai: “eu vejo a emergência de produção social e pontual como uma alternativa para os sistemas proprietários baseados no estado ou no mercado fechado, nenhuma dessas atividades pode atingir a criatividade, a produtividade e a liberdade".

Novas formas narrativas produziram um novo design espacial e cultural, e se não for muita audácia, podemos dizer que produziram um novo sistema de mercado que não seria nem comunismo nem socialismo.

O poder desse novo sistema é maior do que podemos imaginar, subestimamos a força que nossas ferramentas têm de remodelar nossas mentes, ou nós “realmente acreditamos que podemos construir mundos virtuais inabitados todos os dias e não ter nossas perspectivas afetadas?”
Marina Ricciardi

domingo, 27 de junho de 2010

As mortes dos ídolos são sempre mistério

Um ídolo não morre... a arte sempre fica. Talvez seja por isso que a morte dos ídolos tenha se transformado em mitos tão grandes quanto a própria história da vida artística. Digo isso ao me deparar com as manchetes como: “Um ano depois, morte de Michael Jackson ainda é mistério”. Provavelmente sempre será. Assim como foi com Elis Regina e Elvis Presley, para citar apenas dois exemplos.

“Não se esqueça de mim. Mas eu não quero o toque de missão cumprida. Quero o toque de silêncio”; sob esses versos a Pimentinha se despediu. Impossível o toque de silêncio para quem 'soube de tudo na ferida viva do seu coração', 'quis uma Casa no Campo para compor muitos rocks rurais' e 'fez irreverências mil pra noite do Brasil', com uma voz incrível que uniu técnica e emoção num estilo insuperável, que a fez a principal cantora brasileira. Isso sempre fica.

No caso de Elis, seria a Cocaína diluída em uísque? A médica que a recebera morta, no Hospital das Clínicas não emitiu o Atestado de Óbito pela impossibilidade de concluir as causas de morte natural, então, como de praxe, o corpo foi submetido à autópsia. O legista Harry Shibata, o mesmo que assinou o laudo da morte do jornalista Vladimir Herzog, precisou consultar o diretor do DOPS, Romeu Tuma... “Seria possível ingestão de álcool e cocaína por via oral?” No laudo divulgado pelo IML foi assim estabelecido: "Na necrópsia procedida nada encontramos digno de especial menção que pudesse explicar a morte" –, escrevem os legistas José Luiz Lourenço e Chibly Hadad, que assinaram o documento. "O exame toxicológico, de suma relevância no caso, dada a negatividade dos achados da necrópsia, veio nos fornecer a resposta da causa mortis", completam. Os exames foram feitos sob resistência da família e do último namorado de Elis, Samuel Mac Dowell de Figueiredo, que não queriam oficializar a imagem da cantora como usuária de drogas.

Inicialmente Elis era “careta” e hostilizou o desbunde do tropicalismo. Amigos garantiam que ela nunca usou drogas na presença do namorado Samuel, mas que a cocaína surgiu em sua vida em 1981, em uma viagem que fez aos EUA. Estudos recentes apontam que uma pequena dose do pó branco que inspirou Arthur Conan Doyle a escrever as aventuras de Sherlock Holmes, esteve nas rodas do papa Leão XIII e encorajou Elis Regina a subir no palco em seus momentos de insegurança, se ingerida por via oral, é suficientemente letal.

A biografia paradoxal de Elis, como ela mesmo costumava se definir: "Sempre vou viver como camicase. É isso que me faz ficar de pé", levantou algumas questões: ela era viciada, houve induzimento ao suicídio? A dúvida dos médicos nas causas da morte; a nebulosidade sugerida pela própria família; o saudosismo dos fãs na figura do ídolo; e o conflito de versões também sempre fica ...

...Fica, assim como o lendário “Elvis não morreu”... Elvis não morreu porque o rock nunca vai morrer. O primeiro rockstar expandiu o estilo do gueto dos negros e o popularizou na sociedade estadunidense racista. A voz aveludada, a boa pinta, o espírito sedutor e o requebrado sensual consolidaram a figura do canastrão. Mas foi principalmente a música que fez Elvis permanecer influenciando Beatles, Stones, Pink Floyd, Deep Purple, Led, Queen, dentre tantas outras bandas de renome.

Diante de todo o legado, os últimos anos na carreira foram decadentes, tanto para a imagem física de Elvis, que deixou de ser o galã para esbanjar muitos quilos a mais, quanto pela riqueza musical que deixou de ser o rock´n´roll para a predominância das baladas românticas. Para quem experimentou o auge é muito difícil lidar com a normalidade...

Em 16 de agosto de 1977, os fãs da música se viram diante de mais um mistério: das dez da manhã às duas da tarde, ninguém sabe o que ocorreu com Elvis Aaron Presley. A única certeza é que os fatores sistêmicos, como o uso abusivo de medicamentos para perda de peso e controle de apetite, os hábitos cotidianos e as circunstâncias culminaram com o pior, uma falência cardíaca fulminante. Foi a namorada Ginger Alden quem levou o corpo da lenda do rock ao hospital “Memorial Batista”. Elvis não consumia drogas psicotrópicas como cocaína, heroína ou maconha, era viciado em medicamentos. O médico Dr. George Nickopoulos receitava as abusivas doses a seu paciente. Com a morte do ídolo, a comoção popular foi tamanha que as linhas telefônicas de Memphis se congestionaram, as floriculturas venderam todas as flores em estoque e os fãs se aglomeraram para acompanhar o velório. Muitas pessoas acreditam, no entanto, que não foi na data considerada oficial que morreu o “rei do rock” .

O “rei do pop” despediu-se da vida também de uma maneira lendária, às vésperas de sua última turnê mundial. Os ensaios revelavam a fragilidade que Michael Jackson se encontrava. O compositor, o cantor e o bailarino unidos em um só corpo foram consagrados por Thriller, pela voz aguda e pelo Moonwalk. O passo foi exibido pela primeira vez em 16 de maio de 1983, e ficou para o resto de nossas vidas. Michael, mais do que ninguém, representou o poder da fama, o poder de fazer o que as pessoas comuns não fazem... À medida que ia ficando famoso, ele ia se transformando... Nasceu negro e morreu branco, nasceu homem e foi se tornando de uma sexualidade indefinida, foi na infância um adulto devido às pressões da fama prematura e na maturidade tornou-se uma criança.

Assim como todos aqueles que se distanciam do comum, Michael não segurou a onda. A enorme expectativa em torno de uma figura desembocou em bizarrices, idiossincrasias e excentricidades, fazendo-o tornar-se viciado em algo que aliviasse as pressões da necessidade de superação constante. Foi o excesso de medicamentos – o anestésico de uso hospitalar Propofol, o ápice, que acabou por levar mais um ídolo e por complicar a vida de mais um médico inconseqüente em seus prontuários. Conrad Murray hoje é acusado de homicídio culposo. Alguns depoimentos deixam dúvidas no ar... Segundo Alberto Alvarez, diretor da última turnê, o corpo de Michael foi encontrado com a boca meio aberta, os olhos abertos e aparentemente inconsciente. O médico teria trabalhado freneticamente para salvar a vida do artista e até tentou respiração boca a boca.

Alguns fatores aproximam as mortes de Elis Regina, Elvis Presley e Michael Jackson e as tornam mitológicas... A personalidade excêntrica de cada um deles, a eterna busca pelo sucesso e a insegurança pessoal , o envolvimento com drogas e a dificuldade dos médicos em anunciar o apagamento de uma estrela, o falecimento do ídolo e suas devidas causas.

O cartunista Henfil, colocou Elis Regina no “Cemitério dos mortos-vivos”, ao lado de Marília Pêra, Roberto Carlos, Tarcísio Meira, Glória Menezes e Pelé. “Elvis não morreu”. E Michael continua vivo no último suspiro do tão esperado “This is it” que “That wasn´t it”.
Marina Ricciardi

Ponto.

Olhos no ar, o que lhes fazia cor do vento. Do vento para dentro aquela agulha era o mesmo que a fincada no peito. Foi assim que um ponto mudou uma história.Das três irmãs Brigite era a única que conhecia seu pai, o agulheiro. E as metades feitas pelo Equador tornaram-se pequenas nos pés de Camila e Carmela na busca daquele que teria sido o parceiro da mãe Adriana, trinta anos atrás.Apenas uma mãe em comum, pois foi o vendedor de agulhas que tornara Brigite mais distante de seu antigo universo. O amendoim para enganar o estômago nas tão frequentes horas de fome pode ter sido o responsável por tanta energia, mas o verdadeiro motor vinha do coração.Amar e não se sentir reconhecida na figura paterna fez que não somente a mãe tenha as tornado unidas. Sendo assim, Brigite não tinha um pai tanto quanto Camila e Carmela, ao descobrir que aquele que a ensinou os primeiros passos já não era quem ela pensava que era.O nunca não era limite para uma quimera. O universo organizado tornou-se incerto. E o crime tornou-se certo, a facada partiu das entranhas do coração de Brigite para as entranhas do estômago da mãe. Uma mãe morta. Uma mãe que não permitiu às filhas conhecer o verdadeiro pai seria ruim o suficiente?O vendedor de agulhas se revelou com toda a história a ser costurada depois de tantos erros e castigos. Afinal, os direitos são pigmeus perto dos sentimentos? A mãe tinha motivos para tantos segredos diante de uma temporada sombria de omissões, o que não se saberá.Uma notícia boa é do que se precisa. Era fatal que a liberdade fosse restringida pela irrealidade. E de que adianta ser livre longe das pessoas que se ama.Dona Adriana passou uma vida próxima de Brigite, das outras duas estava ao lado, presente, mas muitas vezes perto é que se está longe.E de longe o vendedor de agulhas acompanhou a novela real. Uma cabeça iria rolar e a defunta agora era Adriana, uma defunta que teve mais voz morta que em vida. O vendedor de agulhas, aquele malandro se fez dizer pai das três e uma nova casa se ergueu e ruiu em poucos anos. Foi um lar belo, mas mentiroso.A revelação foi feita pelo avô materno, segundos antes de parar de respirar confessou ser o pai-avô das três. E a grande omissão de Adriana se tornou nobre, a grande revelação do avô se tornou pagã e o grande lar do vendedor de agulhas se tornou pó.As irmãs tinham nos olhos, como nunca ao vento, uma grande indignação e uma maior ainda indagação: porque o vendedor de agulhas nesse emaranhado?A paixão respondeu, enamorado pelas três, foi assim que o vendedor conseguiu possuí-las, em nome do velho amor que sentiu quando adolescente, por Adriana.A paixão, o amor e a vingança. Mais três defuntas suicidas. Mil dias se passaram e a liberdade mais uma vez inútil longe das pessoas que se ama. Uma grandeza que se tornou modesta pechincha a se aturar debaixo de um cobertor de sonhos. Apenas um ponto da vida.
Marina Ricciardi

Amazônia

O mundo está de olho na Amazônia, todos querem que ela seja riqueza mundial. Depois da Guerra Fria houve uma retomada à discussão de “internacionalização da Amazônia”. Agora a situação pode ter sido amenizada pela crise no Iraque e um possível desvio do foco. Mas brevemente é possível que as atenções transfiram-se do petróleo para a água. No próximo século a escassez trará uma super-valorização. As riquezas naturais no local são muitas: sementes, variedade de fauna e flora e principalmente minerais. A riqueza amazônica não está só sobre o solo, mas também sob ele. E o mais complicado, muito do que está ali não está ao controle de nossos olhos. O que acontece freqüentemente passa pelo roubo de material genético indígena, de mudas de plantas, expropriação do conhecimento popular e desenvolvimento de patentes pelas grandes indústrias farmacêuticas internacionais.

Historicamente, no discurso mundial sempre se falou em trocar as florestas Brasileiras pelo pagamento de dívidas ou proteção internacional. Um fato marcante foi em 1989 quando o então presidente José Sarney foi convidado para uma reunião do G7 que discutiria o tema. Em 1990 o Congresso de Ecologistas alemães propôs que “só a internacionalização pode salvar a Amazônia”. Daí então, concordo com a citação e peço permissão para citar Padre Antônio Vieira: ELES NÃO QUEREM O NOSSO BEM, ELES SÓ QUEREM OS NOSSOS BENS.Alguns dizem que não é preciso internacionalizar a Amazônia, pois ela já está internacionalizada pela presença de capital estrangeiro na região. Embora os militares sustentassem a idéia contra a internacionalização, o período em que mais se entrou capital  externo na floresta foi a Ditadura Militar.

Não existe uma exploração ostensiva e descarada, mas verdade é que quem se interessa pelo que ali está dali retira sem que tenhamos um controle efetivo. Em algumas áreas não se tem presença física de governo nem ocupação populacional. Resgatando fatos: a interiorização do povo brasileiro, saindo do litoral para o centro do país foi estimulada para uma defesa e manutenção do território, que culminou com a criação de Brasília, entre outras motivações. Mas como realizar o mesmo na Amazônia? A ocupação “civilizatória” da região com construção de metrópoles aniquilaria a floresta e as culturas indígenas. Houve tentativas de envio de sem-terras como uma desculpa de reforma agrária. Devastar a Amazônia pela perspectiva de agricultura e pecuária também seria um crime, além de desmatamento, encontrar-se-ia solos arenosos.A vulnerabilidade da situação é imensa. O fato de existirem reservas indígenas com certa autonomia de preservação e estatuto próprio abre a possibilidade de discussão internacional no que diz respeito à soberania limitada do governo brasileiro. A presença de fortes de proteção à fronteira freqüentemente entram em conflitos com comunidades indígenas.As tentativas de proteção à Amazônia são bem intencionadas, mas nada são frente ao interesse do mundo todo.

Eu me pergunto se quando as pressões se intensificarem quais as linhas gerais que o próximo governo seguirá em nome de negociações políticas. Até que ponto as relações estáveis com o Brasil são importantes para cada país no cenário internacional. Não duvido que a importância seja grande, principalmente como país chave na América Latina.Qual vai ser a postura dos negociantes? Será que tudo será resolvido amigavelmente, fazendo concessões até que percamos a Amazônia sem percebermos, ou será que o governo e a sociedade sustentarão a defesa Amazônica até a última instância, mesmo que para isso seja preciso enfrentar uma guerra.

Como deveria ser essa guerra. Do nosso ponto de vista não deveríamos pensar em defesas que não são novas. Os militares muitas vezes pensam nas formas tradicionais, como por exemplo, instalação de fortes. Mas, para defender a Amazônia precisa-se do homem Amazônico, que fará um grande diferencial em estratégias de sobrevivência na selva e táticas de guerrilha, pois contra o inimigo, tecnologia é determinante não é determinação. E quem é o inimigo? Atualmente o EUA é o único país que tem condições militares de ocupar a Amazônia. E então, ocupação é diferente de guerra, pois todas as guerras em que não se angariou apoio popular observaram-se derrotas. O exemplo mais famoso disso é o Vietnã.O cerco estaria se fechando? Há milhares de ONGs e empresas estrangeiras atuando no Brasil. Há várias bases americanas na América do Sul em pontos estratégicos tais como Venezuela e Colômbia. Enquanto isso, a ONU teoricamente gere negociações amigáveis, mas na prática não devemos nos iludir, ela reflete a posição dos mais poderosos.Se a guerra vier de fato a ocorrer, poderemos considerar um dos auges da alienação humana em nome de poder, pois pelo que se briga são exatamente as riquezas naturais que estão em questão devido à grande fragilidade do meio ambiente e do planeta Terra, e a guerra viria destruir o que se quer ter.

Um dos maiores desafios geográficos do futuro é a Amazônia. Não há área no mundo internacionalizada, com muita propriedade Cristóvão Buarque, em debate nos Estados Unidos respondeu ao questionamento sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem que o argüiu introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. O ex-governador do Distrito Federal respodeu, pensando como humanista, que seria a favor da internacionalização da Amazônia, assim como da internacionalização do petróleo, do capital financeiro dos países ricos, dos grandes museus do mundo, de todos os arsenais nucleares dos EUA e das crianças famintas do planeta.Como brasileiro, respondeu ser contra.

A questão é muito complexa para a deixarmos de lado. A mídia tem papel fundamental na situação: influenciar é poder, e portanto, mídia é poder. Falar em Democracia no Brasil é falar em democratização dos meios. Devemos pensar uma recriação de projeto Brasil que será desencadeada por opiniões populares, organizações e governo caminhando de mão dadas, que trate a Amazônia não como uma redoma. Se pararmos para pensar, pode ser que se encontre aí um ponto fundamental para alterações no curso da história. Ou será que disfarçadamente a Amazônia já está internacionalizada e será cada vez mais?
Marina Ricciardi

Dois lados da mesma moeda*

Se a vida acabou se desenrolando de tal forma, ela acata, mas quem a vê passar na rua dificilmente imaginaria tantas coisas que sua personalidade carrega. De saia florida, sapato baixo, cabelos curtos, olhos verdes e rosto meigo, a menina se caracteriza. No namoro sério, no trabalho integral, na rotina de morar só e nos compromissos da faculdade, a mulher se revela.Aos 17 anos Júlia se viu longe dos pais, tendo que assumir por si a vida. O que seria um susto, para ela soa natural. Nessa rotina ora atribulada, ora pacata, a menina-mulher tem suas particularidades.Até parece um paradoxo quando ela diz que não crê em Deus, mas demonstra-se tão amável. Muitas pessoas lhe perguntam: “Se você não acredita em Deus, para quê vive?” A resposta é bem simples, vive para dar sua porção, seus exemplos, seus bons gestos para que um dia o mundo seja um pouco melhor, assim, a existência se justifica.Mesmo agindo de forma politicamente correta, a Menina sofre preconceitos devido a sua escolha. A Mulher acha correto ser assim e não admite que as pessoas a vejam como uma pessoa má simplesmente porque não crê em Deus. Aliás, ela é contrária a qualquer tipo de preconceito, cada pessoa tem o direito de ser o que é. Apesar de conviverem no mesmo corpo, a Menina e a Mulher não estão em conflito.
Marina Ricciardi
(Crônica escrita a partir da história contada por Júlia Dantas)*

Inquietação

Até quando você é você? Desde quando você é você? Sabe onde perdeu suas origens, suas vontades e passou a ser vontade dos outros?
Nós sempre fomos fruto da vontade dos outros, desde a concepção sexual, fomos fruto do desejo de nossos pais.
Somos o que nos convém diante da sociedade. Onde está o domínio da nossa vida? O que você faz por si?
Marina Ricciardi

Asas perdidas no tempo

Mudanças na educação brasileira não acompanham a evolução da sociedade moderna
Se um médico de 150 anos atrás fosse transportado para uma sala de cirurgia de hoje, ele ficaria sem saber o que fazer diante dos novos instrumentos e técnicas. Por outro lado, se um professor daquele tempo chegasse a uma de nossas salas de aula, se sairia muito bem.Hoje, a era digital e interativa está presente, mas o ensino persiste com o paradigma cartesiano-positivista de divisão do conhecimento em disciplinas. De acordo com a doutora Rita Melissa Lepre, psicóloga docente do departamento de educação da UNESP (câmpus de Bauru), a multidisciplinaridade é um paradoxo porque ainda não estamos preparados para lidar com ela. "O que se vê são muitas escolas trabalhando com o tradicional, aula expositiva, quadro negro, giz e carteiras em fila".Nesse contexto, a educação continua a mesma, enquanto o indivíduo mudou sem o acompanhamento de uma instituição de ensino, o que produz diversos déficits de formação. O século 20 foi marcado por uma aproximação das crianças às tecnologias da informação, que muitas vezes possuem conteúdos desapropriados para a faixa etária infantil.Nesse ponto, o ensino é importante para a construção da consciência e da personalidade do indivíduo, porque é onde a criança tem maior interação social com a cultura, com o momento histórico e com as outras pessoas. Melissa classifica a situação das escolas como um reflexo do momento atual, uma caoticidade, embora a educação deva ser um dos pólos de evolução. "O pós-modernismo trouxe a falta de referenciais concretos. A situação da escola é a situação da sociedade - crise de valores, pouco cuidado com o outro e a ausência de cidadania. Por isso, o grande objetivo da educação deve ser o exercício de uma cidadania que possibilite transformação social", afirma a psicóloga.

Em meio às "escolas que são gaiolas", o desafio de ser "escolas que são asas".
Marina Ricciardi

Sociedade da informação

O que somos nós senão fluxo de informação? Desde os primórdios da humanidade e a partir da idade infantil somos guiados por isso – aprendizado cultural que caracteriza e diferencia os homens dos demais animais. É assim que são transmitidos os conhecimentos de produção dos mais elementares aos mais sofisticados instrumentos e técnicas de sobrevivência. Essa capacidade de armazenar conhecimento e transmiti-lo é uma característica humana que se dá graças ao fluxo de informação – imaginem se a cada geração tivéssemos que inventar a roda. Nós não só guardamos a técnica da roda, como somos capazes de aperfeiçoá-la graças ao conhecimento adquirido. Apesar de o homem sempre ter sido informacional, a sociedade da informação propriamente dita começou recentemente, e o que a determina é a velocidade e a distância que os dados percorrem, sempre vindo de outros. O planeta se transforma em um ovo eletrônico encoberto por redes, que interligam tudo e todos, formando uma comunidade terrestre em que a Terra se torna uma aldeia global. O conceito de aldeia global proposto por McLuhan não é novo, mas ele se torna cada vez mais uma realidade.No entanto, tal mudança do mundo não é homogênea – há exclusão, principalmente no que se trata de acessibilidade a tecnologias e informações de maneira igualitária. Sabemos que muitas pessoas não têm acesso sequer às necessidades básicas, quanto menos às novidades tecnológicas. No entanto, presenciamos uma inversão nos valores de necessidades – as básicas não são mais as primeiras a serem atendidas, hoje, em alguns lares gasta-se mais com conectividade do que com alimentação.Cada um de nós se vê acometido pela Síndrome do excesso de informação, sempre achamos que precisamos saber algo mais, pois sempre tem algo mais disponível na rede. Essa sede torna-se uma busca sem fim. Não conseguimos mais sossegar nossas cabeças com a sensação de dever cumprido. Por exemplo, as notícias RSS das agências especializadas, lotam sua caixa de email diariamente, possibilitando a facilidade e o dever de se manter informado a todo momento. Aliás, depois que inventaram o email os executivos, os estudantes e qualquer pessoa comum que tenha uma atividade externa não pode mais ter o gozo de se desligar do serviço aos fins de semana, pois sempre abrirá um email profissional nesses dias.O cuidado a se tomar é que a necessidade não vire dependência – hoje é praticamente impossível para as pessoas que estão incluídas nessa mudança passar um dia sem acessar a internet, ela já se tornou parte do nosso cotidiano. Também os celulares, quem hoje consegue ir à praia, desligar o celular e esquecer-se do mundo? Esse é um luxo para pouquíssimos, pois a sociedade da informação nos obrigou a abrir mão do privilégio de desligar-se, sendo que só percebemos que estamos circundados e presos aos percalços dessa nova realidade quando tudo isso se torna extremamente incômodo. A situação não é de toda má. Trata-se de um avanço para humanidade, que os homens precisam aprender a conviver com e administrar. As pessoas que presenciam tal transição podem sentir-se incomodadas, mas para a nova geração trata-se de algo natural. Para eles é inconcebível a vida sem tecnologias da informação, pois já nascem na Sociedade da Informação, cada vez mais digitalizada e personalizada.
Marina Ricciardi