Exemplos práticos desse socialismo na internet podem ser ambientes de compartilhamento ubíquo de arquivos, como o Linux, a Wikipedia, bens coletivos como o Creative Commons e espaços colaborativos como o Flickr e o Youtube. Como resultados da colaboração, calcula-se que a última versão do software colaborativo Fedora Linux 9 é fruto de 60 mil anos-homem (a totalidade do trabalho de 60 mil homens ao longo de um ano). Tudo isso é feito sem remuneração, e o que motiva os participantes é o desenvolvimento de novas habilidades e o aperfeiçoamento competitivo no mercado de trabalho.
Esse novo socialismo não está diretamente ligado ao socialismo de bandeira vermelha, nem é anti-americano. O socialismo digital nasceu numa época de comunicações centralizadas e processos industriais, e os contrapõem com processos de propriedade coletiva, mercado livre, economia global integrada, autonomia individual e descentralização.
Não é absurdo chamar as atividades colaborativas em rede de socialismo porque as tecnologias têm seu poder em interações sociais nas quais milhares de pessoas proprietárias dos bens de produção trabalham por um bem comum sem remuneração e têm direito aos frutos do trabalho sem custo.
John Barlow, um dos ativistas da área reconhece a existência de “uma força mundial composta inteiramente por agentes livres” - o que determina uma economia descentralizada onde não há propriedade e onde a arquitetura tecnológica define o espaço político. No entanto, não se trata de uma ideologia, mas de um conjunto de técnicas e ferramentas que promovem a colaboração e a cooperação social num terreno fértil de inovação.
Aqui, entram questões relativas ao império e à comunicação: controle difuso e flexível, nova ordem imperial com abolição de fronteiras, totalidade biopolítica, dispersão de conflitos e atemporalidade.
Muitas técnicas de saber e de narrar são construídas atualmente de maneira coletiva, portanto são ferramentas muito mais sociais que racionais. Um resultado possível do compartilhamento, da cooperação, da colaboração e do coletivismo é a socialização da educação, apesar de o conhecimento continuar sendo sinônimo de poder.
A tecnocracia pode aumentar a autonomia individual e o poder das pessoas trabalhando juntas. Yochai Benkler propôs a noção de socialismo digital como uma terceira via que pode resolver problemas e criar coisas que nem o puro comunismo, nem o puro capitalismo podem. Nas palavras de Yochai: “eu vejo a emergência de produção social e pontual como uma alternativa para os sistemas proprietários baseados no estado ou no mercado fechado, nenhuma dessas atividades pode atingir a criatividade, a produtividade e a liberdade".
Novas formas narrativas produziram um novo design espacial e cultural, e se não for muita audácia, podemos dizer que produziram um novo sistema de mercado que não seria nem comunismo nem socialismo.
O poder desse novo sistema é maior do que podemos imaginar, subestimamos a força que nossas ferramentas têm de remodelar nossas mentes, ou nós “realmente acreditamos que podemos construir mundos virtuais inabitados todos os dias e não ter nossas perspectivas afetadas?”
Marina Ricciardi
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