quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Antes do tudo novo

O fim da linha
O fim dos tempos
Quando não se pode mais
Se a vida quis assim
Antes do início vem o fim, e antes do fim vêm tantas coisas
Depois do fim, o início, e depois do início, eu só saberei quando começar
O fim nem sempre bom, nem sempre ruim
O fim do bom, diferente do não-bom
O fim do ruim, diferente do bom
O ápice da virada
Tudo novo
E a capacidade de sentir
A comemoração do fim
O fim da arte, à parte
Marina Ricciardi

domingo, 11 de julho de 2010

O Socialismo Digital

Estamos diante de uma nova forma de coletividade, que vem online. As atividades em redes - o compartilhamento, a cooperação, a colaboração e o coletivismo são um novo tipo de socialismo, o socialismo digital:  sem estado nem governo, que atua na economia e na cultura.

Exemplos práticos desse socialismo na internet podem ser ambientes de compartilhamento ubíquo de arquivos, como o Linux, a Wikipedia, bens coletivos como o Creative Commons e espaços colaborativos como o Flickr e o Youtube.  Como resultados da colaboração, calcula-se que a última versão do software colaborativo Fedora Linux 9 é fruto de 60 mil anos-homem (a totalidade do trabalho de 60 mil homens ao longo de um ano). Tudo isso é feito sem remuneração, e o que motiva os participantes é o desenvolvimento de novas habilidades e o aperfeiçoamento competitivo no mercado de trabalho.

Esse novo socialismo não está diretamente ligado ao socialismo de bandeira vermelha, nem é anti-americano. O socialismo digital nasceu numa época de comunicações centralizadas e processos industriais, e os contrapõem com processos de propriedade coletiva, mercado livre, economia global integrada, autonomia individual e descentralização.

Não é absurdo chamar as atividades colaborativas em rede de socialismo porque as tecnologias têm seu poder em interações sociais nas quais milhares de pessoas proprietárias dos bens de produção trabalham por um bem comum sem remuneração e têm direito aos frutos do trabalho sem custo.

John Barlow, um dos ativistas da área reconhece a existência de “uma força mundial composta inteiramente por agentes livres” - o que determina uma economia descentralizada onde não há propriedade e onde a arquitetura tecnológica define o espaço político. No entanto, não se trata de uma ideologia, mas de um conjunto de técnicas e ferramentas que promovem a colaboração e a cooperação social num terreno fértil de inovação.

Aqui, entram questões relativas ao império e à comunicação: controle difuso e flexível, nova ordem imperial com abolição de fronteiras, totalidade biopolítica, dispersão de conflitos e atemporalidade.

Muitas técnicas de saber e de narrar  são construídas atualmente de maneira coletiva, portanto são ferramentas muito mais sociais que racionais. Um resultado possível do compartilhamento, da cooperação, da colaboração e do coletivismo é a socialização da educação, apesar de o conhecimento continuar sendo sinônimo de poder.

A tecnocracia pode aumentar a autonomia individual e o poder das pessoas trabalhando juntas. Yochai Benkler propôs a noção de socialismo digital como uma terceira via que pode resolver problemas e criar coisas que nem o puro comunismo, nem o puro capitalismo podem. Nas palavras de Yochai: “eu vejo a emergência de produção social e pontual como uma alternativa para os sistemas proprietários baseados no estado ou no mercado fechado, nenhuma dessas atividades pode atingir a criatividade, a produtividade e a liberdade".

Novas formas narrativas produziram um novo design espacial e cultural, e se não for muita audácia, podemos dizer que produziram um novo sistema de mercado que não seria nem comunismo nem socialismo.

O poder desse novo sistema é maior do que podemos imaginar, subestimamos a força que nossas ferramentas têm de remodelar nossas mentes, ou nós “realmente acreditamos que podemos construir mundos virtuais inabitados todos os dias e não ter nossas perspectivas afetadas?”
Marina Ricciardi

domingo, 27 de junho de 2010

As mortes dos ídolos são sempre mistério

Um ídolo não morre... a arte sempre fica. Talvez seja por isso que a morte dos ídolos tenha se transformado em mitos tão grandes quanto a própria história da vida artística. Digo isso ao me deparar com as manchetes como: “Um ano depois, morte de Michael Jackson ainda é mistério”. Provavelmente sempre será. Assim como foi com Elis Regina e Elvis Presley, para citar apenas dois exemplos.

“Não se esqueça de mim. Mas eu não quero o toque de missão cumprida. Quero o toque de silêncio”; sob esses versos a Pimentinha se despediu. Impossível o toque de silêncio para quem 'soube de tudo na ferida viva do seu coração', 'quis uma Casa no Campo para compor muitos rocks rurais' e 'fez irreverências mil pra noite do Brasil', com uma voz incrível que uniu técnica e emoção num estilo insuperável, que a fez a principal cantora brasileira. Isso sempre fica.

No caso de Elis, seria a Cocaína diluída em uísque? A médica que a recebera morta, no Hospital das Clínicas não emitiu o Atestado de Óbito pela impossibilidade de concluir as causas de morte natural, então, como de praxe, o corpo foi submetido à autópsia. O legista Harry Shibata, o mesmo que assinou o laudo da morte do jornalista Vladimir Herzog, precisou consultar o diretor do DOPS, Romeu Tuma... “Seria possível ingestão de álcool e cocaína por via oral?” No laudo divulgado pelo IML foi assim estabelecido: "Na necrópsia procedida nada encontramos digno de especial menção que pudesse explicar a morte" –, escrevem os legistas José Luiz Lourenço e Chibly Hadad, que assinaram o documento. "O exame toxicológico, de suma relevância no caso, dada a negatividade dos achados da necrópsia, veio nos fornecer a resposta da causa mortis", completam. Os exames foram feitos sob resistência da família e do último namorado de Elis, Samuel Mac Dowell de Figueiredo, que não queriam oficializar a imagem da cantora como usuária de drogas.

Inicialmente Elis era “careta” e hostilizou o desbunde do tropicalismo. Amigos garantiam que ela nunca usou drogas na presença do namorado Samuel, mas que a cocaína surgiu em sua vida em 1981, em uma viagem que fez aos EUA. Estudos recentes apontam que uma pequena dose do pó branco que inspirou Arthur Conan Doyle a escrever as aventuras de Sherlock Holmes, esteve nas rodas do papa Leão XIII e encorajou Elis Regina a subir no palco em seus momentos de insegurança, se ingerida por via oral, é suficientemente letal.

A biografia paradoxal de Elis, como ela mesmo costumava se definir: "Sempre vou viver como camicase. É isso que me faz ficar de pé", levantou algumas questões: ela era viciada, houve induzimento ao suicídio? A dúvida dos médicos nas causas da morte; a nebulosidade sugerida pela própria família; o saudosismo dos fãs na figura do ídolo; e o conflito de versões também sempre fica ...

...Fica, assim como o lendário “Elvis não morreu”... Elvis não morreu porque o rock nunca vai morrer. O primeiro rockstar expandiu o estilo do gueto dos negros e o popularizou na sociedade estadunidense racista. A voz aveludada, a boa pinta, o espírito sedutor e o requebrado sensual consolidaram a figura do canastrão. Mas foi principalmente a música que fez Elvis permanecer influenciando Beatles, Stones, Pink Floyd, Deep Purple, Led, Queen, dentre tantas outras bandas de renome.

Diante de todo o legado, os últimos anos na carreira foram decadentes, tanto para a imagem física de Elvis, que deixou de ser o galã para esbanjar muitos quilos a mais, quanto pela riqueza musical que deixou de ser o rock´n´roll para a predominância das baladas românticas. Para quem experimentou o auge é muito difícil lidar com a normalidade...

Em 16 de agosto de 1977, os fãs da música se viram diante de mais um mistério: das dez da manhã às duas da tarde, ninguém sabe o que ocorreu com Elvis Aaron Presley. A única certeza é que os fatores sistêmicos, como o uso abusivo de medicamentos para perda de peso e controle de apetite, os hábitos cotidianos e as circunstâncias culminaram com o pior, uma falência cardíaca fulminante. Foi a namorada Ginger Alden quem levou o corpo da lenda do rock ao hospital “Memorial Batista”. Elvis não consumia drogas psicotrópicas como cocaína, heroína ou maconha, era viciado em medicamentos. O médico Dr. George Nickopoulos receitava as abusivas doses a seu paciente. Com a morte do ídolo, a comoção popular foi tamanha que as linhas telefônicas de Memphis se congestionaram, as floriculturas venderam todas as flores em estoque e os fãs se aglomeraram para acompanhar o velório. Muitas pessoas acreditam, no entanto, que não foi na data considerada oficial que morreu o “rei do rock” .

O “rei do pop” despediu-se da vida também de uma maneira lendária, às vésperas de sua última turnê mundial. Os ensaios revelavam a fragilidade que Michael Jackson se encontrava. O compositor, o cantor e o bailarino unidos em um só corpo foram consagrados por Thriller, pela voz aguda e pelo Moonwalk. O passo foi exibido pela primeira vez em 16 de maio de 1983, e ficou para o resto de nossas vidas. Michael, mais do que ninguém, representou o poder da fama, o poder de fazer o que as pessoas comuns não fazem... À medida que ia ficando famoso, ele ia se transformando... Nasceu negro e morreu branco, nasceu homem e foi se tornando de uma sexualidade indefinida, foi na infância um adulto devido às pressões da fama prematura e na maturidade tornou-se uma criança.

Assim como todos aqueles que se distanciam do comum, Michael não segurou a onda. A enorme expectativa em torno de uma figura desembocou em bizarrices, idiossincrasias e excentricidades, fazendo-o tornar-se viciado em algo que aliviasse as pressões da necessidade de superação constante. Foi o excesso de medicamentos – o anestésico de uso hospitalar Propofol, o ápice, que acabou por levar mais um ídolo e por complicar a vida de mais um médico inconseqüente em seus prontuários. Conrad Murray hoje é acusado de homicídio culposo. Alguns depoimentos deixam dúvidas no ar... Segundo Alberto Alvarez, diretor da última turnê, o corpo de Michael foi encontrado com a boca meio aberta, os olhos abertos e aparentemente inconsciente. O médico teria trabalhado freneticamente para salvar a vida do artista e até tentou respiração boca a boca.

Alguns fatores aproximam as mortes de Elis Regina, Elvis Presley e Michael Jackson e as tornam mitológicas... A personalidade excêntrica de cada um deles, a eterna busca pelo sucesso e a insegurança pessoal , o envolvimento com drogas e a dificuldade dos médicos em anunciar o apagamento de uma estrela, o falecimento do ídolo e suas devidas causas.

O cartunista Henfil, colocou Elis Regina no “Cemitério dos mortos-vivos”, ao lado de Marília Pêra, Roberto Carlos, Tarcísio Meira, Glória Menezes e Pelé. “Elvis não morreu”. E Michael continua vivo no último suspiro do tão esperado “This is it” que “That wasn´t it”.
Marina Ricciardi

Ponto.

Olhos no ar, o que lhes fazia cor do vento. Do vento para dentro aquela agulha era o mesmo que a fincada no peito. Foi assim que um ponto mudou uma história.Das três irmãs Brigite era a única que conhecia seu pai, o agulheiro. E as metades feitas pelo Equador tornaram-se pequenas nos pés de Camila e Carmela na busca daquele que teria sido o parceiro da mãe Adriana, trinta anos atrás.Apenas uma mãe em comum, pois foi o vendedor de agulhas que tornara Brigite mais distante de seu antigo universo. O amendoim para enganar o estômago nas tão frequentes horas de fome pode ter sido o responsável por tanta energia, mas o verdadeiro motor vinha do coração.Amar e não se sentir reconhecida na figura paterna fez que não somente a mãe tenha as tornado unidas. Sendo assim, Brigite não tinha um pai tanto quanto Camila e Carmela, ao descobrir que aquele que a ensinou os primeiros passos já não era quem ela pensava que era.O nunca não era limite para uma quimera. O universo organizado tornou-se incerto. E o crime tornou-se certo, a facada partiu das entranhas do coração de Brigite para as entranhas do estômago da mãe. Uma mãe morta. Uma mãe que não permitiu às filhas conhecer o verdadeiro pai seria ruim o suficiente?O vendedor de agulhas se revelou com toda a história a ser costurada depois de tantos erros e castigos. Afinal, os direitos são pigmeus perto dos sentimentos? A mãe tinha motivos para tantos segredos diante de uma temporada sombria de omissões, o que não se saberá.Uma notícia boa é do que se precisa. Era fatal que a liberdade fosse restringida pela irrealidade. E de que adianta ser livre longe das pessoas que se ama.Dona Adriana passou uma vida próxima de Brigite, das outras duas estava ao lado, presente, mas muitas vezes perto é que se está longe.E de longe o vendedor de agulhas acompanhou a novela real. Uma cabeça iria rolar e a defunta agora era Adriana, uma defunta que teve mais voz morta que em vida. O vendedor de agulhas, aquele malandro se fez dizer pai das três e uma nova casa se ergueu e ruiu em poucos anos. Foi um lar belo, mas mentiroso.A revelação foi feita pelo avô materno, segundos antes de parar de respirar confessou ser o pai-avô das três. E a grande omissão de Adriana se tornou nobre, a grande revelação do avô se tornou pagã e o grande lar do vendedor de agulhas se tornou pó.As irmãs tinham nos olhos, como nunca ao vento, uma grande indignação e uma maior ainda indagação: porque o vendedor de agulhas nesse emaranhado?A paixão respondeu, enamorado pelas três, foi assim que o vendedor conseguiu possuí-las, em nome do velho amor que sentiu quando adolescente, por Adriana.A paixão, o amor e a vingança. Mais três defuntas suicidas. Mil dias se passaram e a liberdade mais uma vez inútil longe das pessoas que se ama. Uma grandeza que se tornou modesta pechincha a se aturar debaixo de um cobertor de sonhos. Apenas um ponto da vida.
Marina Ricciardi