domingo, 27 de junho de 2010

Ponto.

Olhos no ar, o que lhes fazia cor do vento. Do vento para dentro aquela agulha era o mesmo que a fincada no peito. Foi assim que um ponto mudou uma história.Das três irmãs Brigite era a única que conhecia seu pai, o agulheiro. E as metades feitas pelo Equador tornaram-se pequenas nos pés de Camila e Carmela na busca daquele que teria sido o parceiro da mãe Adriana, trinta anos atrás.Apenas uma mãe em comum, pois foi o vendedor de agulhas que tornara Brigite mais distante de seu antigo universo. O amendoim para enganar o estômago nas tão frequentes horas de fome pode ter sido o responsável por tanta energia, mas o verdadeiro motor vinha do coração.Amar e não se sentir reconhecida na figura paterna fez que não somente a mãe tenha as tornado unidas. Sendo assim, Brigite não tinha um pai tanto quanto Camila e Carmela, ao descobrir que aquele que a ensinou os primeiros passos já não era quem ela pensava que era.O nunca não era limite para uma quimera. O universo organizado tornou-se incerto. E o crime tornou-se certo, a facada partiu das entranhas do coração de Brigite para as entranhas do estômago da mãe. Uma mãe morta. Uma mãe que não permitiu às filhas conhecer o verdadeiro pai seria ruim o suficiente?O vendedor de agulhas se revelou com toda a história a ser costurada depois de tantos erros e castigos. Afinal, os direitos são pigmeus perto dos sentimentos? A mãe tinha motivos para tantos segredos diante de uma temporada sombria de omissões, o que não se saberá.Uma notícia boa é do que se precisa. Era fatal que a liberdade fosse restringida pela irrealidade. E de que adianta ser livre longe das pessoas que se ama.Dona Adriana passou uma vida próxima de Brigite, das outras duas estava ao lado, presente, mas muitas vezes perto é que se está longe.E de longe o vendedor de agulhas acompanhou a novela real. Uma cabeça iria rolar e a defunta agora era Adriana, uma defunta que teve mais voz morta que em vida. O vendedor de agulhas, aquele malandro se fez dizer pai das três e uma nova casa se ergueu e ruiu em poucos anos. Foi um lar belo, mas mentiroso.A revelação foi feita pelo avô materno, segundos antes de parar de respirar confessou ser o pai-avô das três. E a grande omissão de Adriana se tornou nobre, a grande revelação do avô se tornou pagã e o grande lar do vendedor de agulhas se tornou pó.As irmãs tinham nos olhos, como nunca ao vento, uma grande indignação e uma maior ainda indagação: porque o vendedor de agulhas nesse emaranhado?A paixão respondeu, enamorado pelas três, foi assim que o vendedor conseguiu possuí-las, em nome do velho amor que sentiu quando adolescente, por Adriana.A paixão, o amor e a vingança. Mais três defuntas suicidas. Mil dias se passaram e a liberdade mais uma vez inútil longe das pessoas que se ama. Uma grandeza que se tornou modesta pechincha a se aturar debaixo de um cobertor de sonhos. Apenas um ponto da vida.
Marina Ricciardi

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